Não conheço Rapha Dan Top. Li na Folha ontem que ele tocava teclado numa noite de comédia stand-up em São Paulo quando se ofendeu com uma piada racista do humorista Felipe Hamachi e chamou a polícia.
A Folha explica a revolta de Dan Top: "A confusão ocorreu no momento em que o humorista Hamachi disse que não se pega Aids em relações sexuais com macacos e, em seguida, dirigiu olhares para o tecladista insinuando que mantinha uma relação com ele."
Dan Top é negro, vi seus vídeos no YouTube. É um tecladista "soul", sensível, sensibilidade que faltou ao humorista. Que vai se defender (e será defendido) recorrendo à liberdade de expressão.
As pessoas que defendem o relativismo e a tolerância em relação ao discurso racista e preconceituoso são quase sempre pessoas que não sofrem racismo ou preconceito. Por isso são assim tolerantes.
E não é só nos salões de humor que o racismo e o preconceito no Brasil são tolerados e professados como piada. Ele está em toda parte, escuta-se pela rua. É aceito, como sempre, informalmente. Em São Paulo, principalmente contra negros e nordestinos.
Mas o Brasil mal fala de racismo e preconceito, colocou a discussão na lateral, nunca no centro. Com espasmos sintomáticos. E laterais.
Como a discussão e, 2010 sobre a recomendação do Conselho Nacional da Educação de retirar "Caçadas de Pedrinho" da lista de livros distribuídos pelo governo federal por causa dos trechos racistas da obra de Monteiro Lobato.
Veja bem, não se recomendou a censura, mas que se retirasse o dinheiro do contribuinte da distribuição oficial de uma obra com mensagens racistas.
Os intelectuais, quase todos, quase todos brancos, defenderam a continuação da distribuição do livro de Lobato nas escolas de um país de maioria de pretos e pardos (na nomenclatura dos técnicos brancos do IBGE) apesar da obra trazer, entre outros, o seguinte trecho: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão".
Fico imaginando como se sentem crianças negras em salas de aula durante a leitura de livros como esse, distribuídos pelo governo apesar do veto a obras que contenham preconceito e racismo. Ao final, por decisão do MEC, após a pressão dos intelectuais, o livro seguirá sendo distribuído com pequena nota explicativa.
O mesmo argumento usado para defender a obra de Lobato foi usado na mais recente (não) polêmica sobre a iniciativa do Ministério Público Federal de Uberlândia de retirar de circulação e multar o dicionário Houaiss por seu verbete racista em relação aos ciganos.
Não-polêmica porque, estimulada pela truculência dos procuradores, imediatamente formou-se marcha unida de intelectuais e especialistas a favor da manutenção dos significados negativos para cigano. Está lá no sexto item a explicar a palavra: "6 Uso: pejorativo. que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina ".
Assim como os livros de Lobato refletiriam o espírito de sua época, quando o racismo era tolerado mais abertamente, os verbetes racistas nos dicionários registram e explicam o uso das palavras hoje, função básica do dicionário. Inclusive os significados pejorativos.
O professor de português Pasquale Cipro Neto, colunista da Folha e humanista, argumentou com propriedade: "O dicionário é como um cartório: não deve fazer julgamento, deve fazer registro. Se é bom, se é ruim, é outra coisa."
Mas falando como profissional de comunicação, não como professor de português ou linguista, sei que o registro dos significados racistas nos dicionários ajudam a propagá-los e justificá-los, lhes dão certa legitimidade.
No verbete "judeu" do Houaiss, lê-se na nona definição: "9 Uso: informal, pejorativo. pessoa usurária, avarenta". Neste caso, o "informal" enfraquece ainda mais o "pejorativo", por si só um eufemismo insuficiente para explicar significados pavorosos ali propagados.
Lembro que fiquei muito triste quando, criança, li pela primeira vez essa definição "pejorativa" para judeu num dicionário, provavelmente um Caldas Aulete de quatro volumes e capa dura que tínhamos em casa.
Nas edições concisas que chequei nesta semana do dicionário inglês Oxford e francês Larousse, não encontrei esses significados negativos para judeu e cigano que constam da edição concisa do Houaiss. Já uma edição de 1910 do Oxford trazia as versões pejorativas para judeu e cigano. E não vá dizer que saiu do dicionário porque os ingleses deixaram de ser antissemitas. Parece que Oxford compreendeu outras coisas. E o que é bom para Oxford pode ser bom para o Houaiss.
Sou duplamente do povo escolhido, porque eu sou baiano e eu sou judeu. Morando em São Paulo e neste país católico ibérico. Sei bem o que é preconceito.
Se intelectuais gelados decidirem a discussão sobre o racismo e o preconceito no Brasil, ela seguirá congelada. Quem mais entende de preconceito é quem sofre de preconceito. É quem deve liderar essa discussão. Ou pelo menos participar dela.
Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos "Dinheiro" (2004-2010) e "Mundo" (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.

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